Do Sul para um novo Eldorado

Tchê

Em busca de terras férteis e do sonho de mudar de vida, agricultores gaúchos deixaram tudo para trás rumo a uma parte pobre no Norte e no Nordeste. Anos depois, a saga transformou a região e consolidou uma nova fronteira agrícola

REPORTAGEM

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Herdeiros de pequenos pedaços de terra no Rio Grande do Sul, eles não olharam para trás. Colocaram tudo o que tinham em cima de caminhões, de galinhas a tratores, e rumaram milhares de quilômetros guiados pelo instinto em desbravar um novo Eldorado. Seguiram a saga dos antepassados italianos e alemães, que cruzaram o Atlântico em direção ao Brasil.

Levaram consigo esperança e uma só exigência: terras baratas e férteis para plantar. Ninguém prometeu que seria fácil. E eles não esperavam que fosse. Acessos difíceis, infraestrutura precária e, em alguns lugares, nem mesmo energia elétrica e água potável. Um verdadeiro fim de mundo. Nessas terras inóspitas, que nem os nativos viam futuro, agricultores gaúchos abriram estradas, armaram barracas, enterraram alicerces e lançaram as primeiras sementes de grãos no solo coberto por cerrado.

A primeira parada foi no oeste da Bahia, onde a logística e as condições eram menos árduas. No fim da década de 1980, um hectare na região era vendido por, no máximo, cinco sacas de soja – pouco mais de R$ 200, hoje. Na época, a mesma área no Rio Grande do Sul valia de 25 a 50 vezes mais.

Tudo era diferente, dos costumes à forma de trabalhar. Mas era preciso seguir em frente. Aos poucos, a dedicação fez brotar lavouras consistentes, e as áreas na Bahia se valorizaram. Os migrantes, então, perceberam que era possível ir além. A mais de 600 metros de altitude, no sul do Piauí, encontraram novas terras para a agricultura no fim da década de 1990. Subiram chapadões e enfrentaram resistência dos nativos, que os chamavam de “forasteiros” e “destruidores do cerrado”. Como resposta, diziam que não estavam ali para tirar nada de ninguém. E foram adiante.

No sul do Maranhão, a chegada dos produtores foi seguida da instalação de grandes empresas agrícolas, fazendo nascer um novo polo do agronegócio no Nordeste. Perto dali, no Tocantins, áreas inexploradas de cerrado deram lugar a imensidões de lavouras de milho e soja.

As sementes lançadas no Matopiba não vingaram só no campo. Aos poucos, transformaram-se em alento para um pedaço do Brasil historicamente castigado pela pobreza e pela falta de perspectivas. Com a força das lavouras, cresceram cidades, comércio, serviços e emprego.

Batizada pelo governo federal há poucos meses com as iniciais dos quatro Estados – Matopiba –, a região já é a quarta maior produtora de grãos do Brasil. Neste ano, pela primeira vez, o Nordeste produziu mais do que o Sudeste. E o horizonte é promissor: enquanto a safra de grãos cresce 3,5% no Brasil, em média, o avanço chega a 20% ao ano na nova fronteira agrícola.

No Matopiba, a área aumenta junto com o ganho em produtividade. E a expansão ainda está longe do limite

EVARISTO DE MIRANDA

Pesquisador e coordenador do Grupo de Inteligência Territorial Estratégica da Embrapa

Em 10 anos, a produção aumentou 230% no Matopiba, e o Código Florestal permite o cultivo desde que 20% a 35% das áreas sejam preservadas. Para Miranda, a consolidação de lavouras e de tecnologia abre caminho agora para a verticalização da produção – com beneficiamento de grãos e criação de gado, frango e suínos, a exemplo do que ocorreu no Sul e no Centro-Oeste.

Mas o agronegócio no Matopiba ainda são ilhas de prosperidade em um mar de miséria. A região é marcada por coronelismo e pobreza, onde educação, saúde e renda sempre foram privilégio de poucos. Enquanto produtores cultivam áreas de 100 mil hectares, 10 vezes superiores às maiores fazendas no Rio Grande do Sul, 94% das propriedades da nova fronteira agrícola são pobres ou muito pobres. Os 6% restantes geram quase 87% da renda, conforme estudo da Embrapa.

– É uma região muito rica e carente ao mesmo tempo, que precisa de organização rural, investimentos em logística, capacitação de trabalhadores e melhores serviços públicos – pondera Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV).

O Nordeste que fala tchê está longe do paraíso, ainda padece com infraestrutura precária, desigualdade social, conflitos fundiários e insegurança jurídica. Mas as imperfeições de hoje nem de longe lembram a região que há poucos anos parecia fadada à seca e à miséria permanente. As terras inférteis tornaram-se produtivas, catapultaram a economia e revigoraram a esperança.

Durante 10 dias, a equipe de ZH percorreu cerca de três mil quilômetros nos quatro Estados. Viu e ouviu, no campo e na cidade, as faces e as histórias de quem fez germinar a nova fronteira agrícola do Brasil. E mostra a trajetória do Matopiba Tchê: da transformação de uma região aos sonhos colhidos por gaúchos que, se pudessem voltar no tempo, fariam tudo de novo.

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