60,5km

percorridos

FOBIA DE COBRAS E SOLIDÃO

Antes de partir rumo a Pelotas, na segunda-feira, dia 9, voltamos à Pedal Bicicletaria para fazer uma pequena revisão e tirar o excesso de areia das bikes. Na loja, conhecemos o mecânico Jedson Bastos, 39 anos, que chamou nossa atenção com uma pulseira feita de corrente de bicicleta no pulso.

 

– Nunca contei isso para ninguém. Tirei a ideia de um filme pornô. Tanta coisa para notar... Catei uma corrente e resolvi fazer uma igual à que o ator usava – revela Jedson, mais de 20 anos de profissão.

 

Jefferson e eu saímos do local com “braceletes” personalizados. Depois do almoço, deixamos Rio Grande. Ao contrário do dia anterior, quando a chuva deu as caras e atrapalhou o nosso passeio, o grande vilão da viagem para Pelotas foi o forte calor. Já na BR-392, um motociclista parou do meu lado e pediu para eu avisar o meu companheiro de viagem: que ele guardasse a câmera fotográfica.

 

– Ela chama muito atenção, vão roubar dele – avisa, indicando que a estrada não é segura.

 

Apesar do alerta nada animador, o lado positivo ficou por conta da estrada, duplicada, com um ótimo acostamento. Na BR-392, a dica é descansar um pouco no pedágio da Ecosul, tradicional ponto de encontro de ciclistas para beber um café ou se hidratar – as bebidas ali são gratuitas.

Depois do posto do pedágio, passei por algo que jamais havia imaginado ter de enfrentar: no acostamento, muitas cobras, entre mortas, feridas e vivíssimas. De repente, senti uma fobia que não fazia ideia ter. Acelerei. Só pensava em tirar do meu pensamento aqueles animais que recém haviam cruzado o caminho. Após pedalar freneticamente durante cerca de meia hora, parei.

Ao olhar para trás, nenhum sinal do Jefferson. Pela primeira vez, eu estava sozinho na viagem. Mandei mensagem para ele via WhatsApp, liguei. Nenhum resposta. Então senti medo. Quase chegando a Pelotas, ao cruzar a Ponte Léo Guedes, sobre o canal São Gonçalo, tive medo de altura, de cair. Estava atordoado.

 

Parei em um posto na entrada da cidade e ali esperei o meu colega. Enquanto o aguardava, entendi a importância da parceria em viagens como a que fazíamos. Ter alguém com quem contar durante experiências desgastantes fisicamente como esta torna tudo mais fácil.

35,6km

percorridos

2h33

pedalando

7º dia

de viagem

A MELANCOLIA DO FIM

Encerraríamos a jornada em uma terça-feira, dia 10. A previsão era de chuva forte no meio da tarde, então, combinamos de esperar o aguaceiro passar para fazer o último passeio.

 

A ideia era uma pedalada mais suave. Optamos por dar um pulo na Praia do Laranjal. Até o mar, são cerca de 14 quilômetros pelas avenidas Ferreira Viana e Adolfo Fetter. O temporal não veio. Por volta de 17h, partimos.

O caminho é percorrido de bike por uma ciclofaixa sem sinalização. Chegamos ao Laranjal com o céu nublado. A extensão da orla é de dois quilômetros. O local é um refúgio dos pelotenses, que por ali costumam relaxar nos finais de semana. Pedalamos na beira da lagoa, com uma paradinha no trapiche do Balneário Verde, até o Pontal da Barra, onde observamos o movimento dos pescadores. Nossa aventura chegava ao fim.

Na volta, ao anoitecer, a chuva ameaçava cair. O céu, nublado, completava o cenário de melancolia. Era impossível não pensar em tudo pelo que havíamos passado, os caminhos que ficaram para trás e os que deixamos de lado, as decisões tomadas, as pessoas que encontramos. A sensação, ao mesmo tempo de dever cumprido, era de que faltava alguma coisa, de ter deixado para trás algo grande, importante.

 

Nessas horas, é inevitável não refletir sobre clichês que têm sido repetidos a exaustão nos últimos tempos: conectar-se com a natureza, olhar para dentro de si, colocar-se no lugar do outro. Escrevendo esta reportagem, tentei encontrar significados para aqueles setes dias pedalando pelo sul do Estado. Sigo em busca de respostas. Na falta de algum conselho, recorro à poetisa Lila Ripoll, natural de Quaraí, que, em 1938, escreveu sobre a necessidade que tinha de sair por aí. Ela precisava viajar para fazer “uma cura de alma”. Para onde? “Qualquer porto que encontre será meu abrigo. / Qualquer vento me serve. Eu preciso é viajar!”, escreveu.

 

O destino, para ela, não tinha grande importância. Parece ser esse também o espírito necessário para quem decide sair por aí desbravando novos lugares sobre uma bicicleta.

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3h13

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