Em 2016, Polícia Civil gaúcha fez apreensão de material nazista em sete municípios. Foto: Polícia Civil, Divulgação MILITANTES DO RS SERIAM RECRUTADOS PARA A GUERRA CIVIL NA UCRÂNIA

O conflito entre Ucrânia e Rússia no Leste Europeu, que se arrasta por mais de dois anos, gerou ações de recrutamento de lutadores e simpatizantes no Brasil. No Sudeste e no Sul, um italiano de extrema-direita teria atuado como caçador de militantes – com gaúchos entre eles – para as organizações conhecidas como Batalhão Azov e Misanthropic Division (Divisão Misantropa, grupo que congrega pessoas avessas a... pessoas). As duas são pró-Ucrânia, nacionais-socialistas e nasceram para enfrentar as tropas pró-russas e separatistas em 2014, época em que eclodiu o conflito. Parte de seus membros é antissemita e defensora da supremacia racial. O Batalhão Azov inclusive ostenta símbolos de inspiração nazista.

Ambas as organizações espicharam ramificações pelo mundo, chegando à América do Sul. Aos seus seguidores latino-americanos – em número restrito: cerca de 50 extremistas no Rio Grande do Sul são monitorados pelas autoridades –, oferecem mais do que ideologia. Pelo menos um gaúcho de Canoas esteve em 2014 na guerra da Ucrânia, onde recebeu treinamento militar, aprimorou habilidades para fabricar bombas caseiras e participou de combates. Uma mulher de Caxias do Sul, considerada intelectual das correntes de extrema-direita, foi contatada pelo italiano Francesco Fontana, apontado como recrutador, e convidada a integrar o setor cultural da Misanthropic Division Girls. Um terceiro, também de Caxias, esteve em 2016 na Espanha para se encontrar com um grupo batizado Crew 38, dedicado à cultura e música nazi. A reportagem apurou que pelo menos dois jovens paulistas também estiveram no front ucraniano.

É um novo perfil dos extremistas que se aproximam de movimentos nacionais-socialistas, ideologia do governo de Adolf Hitler na Alemanha nazista (1933-1945). Nos anos 1990, os brasileiros que se envolviam com essas teses não passavam do ideário e da busca por livros revisionistas – textos que negavam o Holocausto (o genocídio de cerca de seis milhões de judeus na II Guerra Mundial) –, parte deles escrita e vendida no Rio Grande do Sul. Ainda hoje, uma livraria em Torres, no Litoral Norte, mantém um estoque com centenas de exemplares dos livros do gaúcho Siegfried Ellwanger Castan (1928-2010), um guru dos nacionais-socialistas.

Na década seguinte, afloraram ataques contra judeus, negros, homossexuais e punks, com agressões brutais, esfaqueamentos e assassinatos. Episódio emblemático ocorreu em 2005, quando três judeus foram agredidos por neonazistas na Cidade Baixa, em Porto Alegre. Um deles, ferido por golpes de faca, quase morreu. O julgamento dos acusados ainda está pendente.

Agora, numa terceira fase, surge a busca por fazer guerra de verdade. O Leste Europeu aparece como oportunidade, mesclando apelo ideológico e o campo de batalha, envolto por uma névoa  de romantização da violência e do militarismo.

– Por extrema-direita, podemos entender o forte apelo ao processo de naturalizar formas de diferenciação dos setores da sociedade. Logo, existe a sistematização de um binarismo mutuamente excludente, entre “nós” e “eles”, onde o “outro” necessita ser sanado, reparado ou até extinto. A porção mais radical da extrema-direita compreende as organizações neonazistas – afirma Odilon Caldeira Neto, doutor em História pela UFRGS e professor da Universidade Federal de Rio Grande (Furg).

A internet é uma das propulsoras da escalada dos movimentos extremistas. É pelos blogs e redes sociais que acontecem debates, doutrinas, recrutamentos e ações propagandistas. As redes acabam sendo um refúgio para jovens que, após frustrações e isolamentos sociais, decidem se radicalizar e cultivar ódio racial.

Foi a partir de contatos virtuais que Francesco Fontana – investigado pela polícia gaúcha e monitorado pela Interpol por sua atividade política – veio parar no Brasil em outubro de 2015. Um grupo de simpatizantes viajou até São Paulo para conhecer o homem mais velho, hoje com 54 anos, que colhia fama entre extremistas por estar, àquela época, lutando nas trincheiras ultranacionalistas do Batalhão Azov. Fontana diz que atravessou o Oceano Atlântico apenas para contar histórias de guerra aos brasileiros. Autoridades nacionais e internacionais acreditam que ele tinha a missão de recrutar combatentes para o Azov e a Misanthropic Division.

A guerra na Ucrânia arrefeceu e, hoje, a importação de lutadores decaiu significativamente. Confrontos pontuais prosseguem, mas a Rússia, que já anexou a Criméia, uma parte do antigo território ucraniano, está agora mais ocupada com o conflito na Síria.

A própria conexão de Fontana com simpatizantes brasileiros regrediu. Ele, que já deixou o Azov, não teria mais mantido contato com a aliada de Caxias desde janeiro de 2016. Até pelo esfriamento da guerra na Ucrânia, a Polícia Civil não colheu provas definitivas de que havia um plano para alguma espécie de ataque no Estado. Não houve indicativo nesse sentido. Ainda assim, ao final de meses de investigação, o delegado Paulo Cesar Jardim, da 1ª Delegacia de Porto Alegre, obteve mandados e fez buscas nas casas de nove militantes gaúchos em 8 de dezembro. A opção, diante do que a polícia classificou como “suspeita”, foi por agir preventivamente para desmobilizar o grupo. Pelo menos três dos investigados têm histórico de violência social. Em demonstração de ousadia dos radicais, o delegado Jardim recebeu ameaças e teve a sua casa pichada com uma suástica, símbolo maior do hitlerismo.

Para especialistas, o novo momento dos extremistas, casando ideologia e conservadorismo com as conexões europeias, pode significar problemas.

– Como a saída é a violência, jovens adeptos dessas ideologias buscam praticá-la onde isso é possível. Daí a alternativa ucraniana. Provavelmente não se trata só de lutar por nacionalistas da Ucrânia, mas sim de ganhar experiência e pôr em prática essa violência no Brasil. Isso pode representar uma ameaça no futuro – avalia Fabiano Mielniczuk, professor de Relações Internacionais da ESPM e diretor da Audiplo: Educação e Relações Internacionais.

 

Caminhos abertos
para o recrutamento

 

Passado e presente da civilização estão na base dos argumentos de quem procura explicar as brechas para a retomada de movimentos nacionais-socialistas de cunho racista. Duas crises contemporâneas, a econômica e a humanitária, que provocam falta de perspectivas e deslocamento forçado de populações, são apontadas como as razões de fundo para a onda de extrema-direita, que traz consigo discussões de supremacia racial e aversão a pautas do chamado mundo moderno. O fechamento de fronteiras, a eliminação do eventual concorrente e a violência passam a ser caminhos.

– Nos anos 2000, a crise econômica aumentou o número de desempregados e potencializou a adesão a movimentos nacionalistas. A cereja do bolo veio com a crise migratória e os atentados terroristas contra o Ocidente. A partir de então, a modernidade representada pela integração europeia passou a ser vista como uma ameaça e o nacionalismo foi reforçado via atitudes xenófobas. Tanto o Brexit (saída da Inglaterra da União Europeia), quanto a eleição de Trump (nos Estados Unidos) refletem um pouco essa atmosfera global. Não teria como o Brasil passar incólume – afirma Fabiano Mielniczuk.

No Rio Grande do Sul, o contexto de crise provocou o crescimento de manifestações xenófobas e racistas contra os imigrantes haitianos e senegaleses. É em situações como essa que o nacionalismo radicalizado aflora.

– Isso acontece especialmente quando a juventude fica sem perspectivas: qualquer idiota com uma mensagem, por mais idiota que seja, consegue público. Eles sempre dizem “eu sei, o caminho é esse”, e geralmente apontam culpados – diz Jair Krischke, fundador e presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos do RS.

Embora o cenário imediatista funcione como estopim para o crescimento da onda extremista, é de conhecimento de autoridades e estudiosos o fato de que grupelhos neonazistas se mantêm vivos há décadas, mesmo em período de aparente bonança econômica. Aí, neste ponto, emergem as razões históricas e geográficas do Brasil. Mielniczuk diz:

– Entra o fato de o Rio Grande do Sul ser um Estado de imigração europeia. Não se pode esquecer que, por trás da importação de mão de obra europeia, no Império Brasileiro, estava a ideologia de embranquecimento da sociedade e a crença de que os negros não desempenhariam bem suas funções em uma economia assalariada.

Isso não significa que o descendente de europeu é apoiador de causas supremacistas por natureza, mas que ele pode estar mais propenso a esse tipo de atitude, sobretudo em época de crise.

– É equivocada qualquer associação entre a imigração alemã e a formação de grupos neonazistas, como se os descendentes de europeus fossem automaticamente adeptos do nacional-socialismo. O que ocorre é essa atribuição, por parte dos militantes da extrema-direita, à imaginação de uma condição social (superior) do território do Rio Grande do Sul. Esse fator é ressaltado pelo fato de que o grupo Misanthropic Division, em sua carta de fundamentos, diz ser um movimento destinado exclusivamente a europeus ou eurodescendentes. Os seus membros se postulam como europeus em terras tropicais, por mais distante da realidade que essa condição possa ser – aponta Odilon Caldeira Neto.

Ele ainda destaca questões geográficas, como a proximidade com a Argentina, país que conta com grupos mais robustos de extremistas e que, após a II Guerra, recebeu secretamente em exílio colaboradores diretos de Hitler.

Krischke, citando manifestações nazistas em parques e estádios de futebol de Porto Alegre, no final dos anos 1930, acrescenta:

– Há um caldo de cultura muito antigo, e mais um elemento: o separatismo. Há grupos separatistas que são fortes, importantes até no cenário social, e se tu olhares esses caras, tanto os daqui quanto os de Santa Catarina e do Paraná, eles têm um viés neonazista. Eles propõem criar aqui um novo país branco. Isso tudo, nos momentos de crise, abre espaço para (os jovens) serem cooptados por essas ideias esdrúxulas.

Apesar do agito momentâneo, especialistas acreditam que o nacional-socialismo não deverá alcançar maiores patamares na sociedade brasileira.

– A ameaça de um “retorno nazista” é praticamente nula, inclusive porque esses grupos procuram a marginalidade e ilegalidade do campo político. Contudo, a ameaça reside na interação entre tendências da extrema-direita que, sob pontos comuns, tais como a negação dos direitos humanos, às políticas afirmativas e de reparação histórica, podem gerar manifestações políticas mais fortes, inclusive no apoio a candidatos eleitos – entende Caldeira Neto.

Manifestação nazista no estádio de futebol do extinto Renner, na Capital, no fim dos anos 1930.Foto: Getúlio Vargas, Reprodução

• VOLTAR PARA A CAPA