Nem a várzea toparia

o Joaquim Vidal

são josé de cachoeira

A o entrar no Estádio Joaquim Vidal, ou no que restou dele, Vitor Baisch, 35 anos, torcedor e sócio do desativado São José de Cachoeira do Sul, desabafa:

– Foi nessa goleira que o Josiel fez o gol contra o Grêmio. Dá uma tristeza de ver. A gente olha e não acredita que, por cinco anos, teve aqui jogos da Série A do Gauchão. Agora, não tem condições de receber partidas da várzea.

A lembrança se referia à vitória por 2 a 1 sobre o Tricolor treinado por Hugo de León no Gauchão de 2005. De propriedade da prefeitura, o estádio está em situação extremamente precária – a Secretaria Municipal de Desporto garante, porém, que existem recursos garantidos para uma reforma.

Fundado em 1968, o Grêmio Esportivo São José ficou boa parte de sua história disputando competições amadoras. A profissionalização veio em 1993. Cinco anos depois, subiu da Série C para a Divisão de Acesso. Foram mais cinco temporadas até chegar à elite, em 2002, quando era presidido por Adão Steindorff. Até 2007, jogou a Série A. Na temporada 2008, a cidade teve dois clubes na Série B: São José e Cachoeira. Foi a despedida do futebol profissional no município (que ainda teve outro time, o Guarany, vice-campeão gaúcho em 1943 e que fechou as portas na década de 1970).

Ex-dirigentes Sartório e Steindorff no que restou do estádio  do São José, em Cachoeira do Sul

O goleiro Nivaldo, que se aposentou na Chapecoense após o desastre aéreo, jogou no São José em 1997. O centroavante Alê Menezes foi revelado pelo clube, e o meia Rodrigo Caetano (atual diretor-executivo do Flamengo) aposentou-se no Joaquim Vidal. O clube também teve como atacantes Josiel, artilheiro do Brasileirão 2007 pelo Flamengo, e Gustavo Papa, ex-Inter.

Durante 15 anos, na época gloriosa, Renato Druzian Sartório era o diretor de futebol. Ele conta como o time chegou à elite e se manteve:

– Existia uma diretoria, que era amadora, pois ninguém ganhava nada, mas que gostava do clube. A torcida apoiava. O comércio ajudava financeiramente, chegou a faltar espaço para publicidade no estádio. Os dirigentes eram muito identificados com a comunidade. Uma parte grande da minha vida dediquei ao São José, muitas vezes deixei até a minha família de lado.

Para Sartório, a principal causa da derrocada foi o São José ter “perdido suas raízes”.

– A queda ocorreu partir do momento em que deixamos pessoas estranhas assumirem, e elas não deram continuidade – opina.

Dois jogos são considerados inesquecíveis pelos ex-dirigentes. O primeiro, a vitória nos pênaltis sobre o Juventus de Santa Rosa, em 1997, que colocou o São José na Série B. O segundo, o empate em 1 a 1 diante do Bagé, em 2002, fora de casa, resultado que garantiu a equipe de Cachoeira na Série A.

Vitor Baisch, o torcedor fanático, também é o mentor do projeto que pode reativar o futebol profissional em Cachoeira do Sul. Ele é o presidente da Associação Atlética, Beneficente e Cultural (AABC) São José. O time jogou o Estadual de Futsal Sub-20 em 2016 e, na próxima temporada, disputará a Série Bronze (terceira divisão do Estadual).

– A ideia é fazer um resgate do clube. Temos o sonho de voltar ao campo, mas enquanto não tiver estádio, não adianta sonhar. Espero que o novo prefeito (Sérgio Ghignatti) dê continuidade ao projeto de reforma – diz Baisch.

Pelas dívidas, enfatiza Renato Sartório, a volta do Grêmio Esportivo São José aos gramados é uma possibilidade improvável.

– A AABC pode ser o futuro. Com o estádio em condições, será possível fazer um time sub-20 e depois pensar em Divisão de Acesso – conclui.

Nem a várzea toparia

o Joaquim Vidal