Sem Breno Mello,

não haveria Obama

renner

força

e luz

A história de Breno Mello é famosa. Negro, alto e dono de uma aparência de derrubar corações de donzelas, o então centroavante nascido em Porto Alegre e criado em Canoas foi um dos ídolos do Grêmio Esportivo Renner, clube da empresa homônima que marcou a capital nos anos 1950. Depois do título estadual de 1954, fez sucesso e se transferiu para o Fluminense, onde conheceu Pelé e, no final da década, recebeu o mais inusitado convite de sua vida: atuar no filme Orfeu Negro, do cineasta francês Marcel Camus. Pois o filme venceu o Festival de Cannes e despertou a paixão de uma americana, Ann Dunham.

Encantada pela beleza de Orfeu, a antropóloga nascida no Kansas botou na cabeça que queria casar com alguém como Breno Mello. Conheceu, então, um homem alto, negro e com alguma semelhança: um economista queniano chamado Barack Obama. Juntos tiveram um filho homônimo, que mais tarde, todos sabem, foi o 44º presidente dos EUA.

Talvez não seja bem a história da genealogia do líder americano, mas para os remanescentes rennistas, é.

– Se não fosse o Renner, não haveria Barack Obama – ri Sérgio Bechelli, ex-secretário de Saúde do Estado e uma das memórias do clube.

E Breno Mello nem era o melhor jogador do Renner, que ocupava o Estádio Tiradentes, na esquina das atuais avenidas Sertório e Presidente Franklin Roosevelt (lugar hoje ocupado pelo prédio do Denarc e por um condomínio). Em um time de craques, que ganhou o Gauchão de 1954 (foi o último campeão porto-alegrense diferente de Inter ou Grêmio), o centroavante ficava atrás de outras estrelas, como o meia-atacante Ênio Andrade e o goleiro Valdir de Moraes – que depois brilharam juntos no Palmeiras.

Mas havia mais do que simplesmente uma constelação no campeão de 1954. Para vencer 16 e empatar dois dos 18 jogos do Campeonato Metropolitano, o time contou com a preparação técnica e – principalmente – física de Selviro Rodrigues, formado na Escola Militar do Rio de Janeiro. Inspirado no Honved e na seleção húngara, ele criou um sistema de trabalho que fortalecia seus jogadores e um aquecimento que deixava seu time voando já no apito inicial – a equipe ganhou mais da metade das partidas com gols antes do 15º minuto.

– Precisamos confessar que tinha outro segredo: o vestiário do Renner no Waterloo (apelido do Estádio Tiradentes, em referência ao local onde Napoleão foi derrotado) tinha uma luz fraquinha, enquanto o do adversário parecia uma árvore de Natal. Quando entravam em campo, os nossos atletas se adaptavam rapidamente, e os deles demoravam por causa da diferença de claridade – diverte-se Bechelli, sentado em uma das cadeiras dos fundos da casa do arquiteto Luiz Carlos Macchi cuja peça foi transformada em um museu informal do Renner.

Macchi foi recebendo as doações e montando uma parede forrada de lembranças do clube. São quadros, fotos, camisetas, faixas, bandeiras e o que mais surgir. Todos os anos, recebem os remanescentes do time e torcedores para relembrar a conquista de 1954. Entre eles, está o médico Arnaldo da Costa Filho, 94 anos, o primeiro profissional a realizar uma cirurgia de menisco cruzado no país, mudando a história da medicina esportiva. E, também, um dos pioneiros em suturas improvisadas à beira do campo. Desta forma, enquanto os demais clubes precisavam levar o jogador ao posto de saúde ou ao hospital – e não havia substituições –, o atleta rennista recebia os pontos ali mesmo e voltava para a partida.

De tudo isso – profissionalismo, ídolos, craques, inovação, cinema, gols e título –, porém, a maior marca do Renner está fora do futebol.

– Éramos de um bairro multicultural, de diferentes etnias, proletário e industrial. O 4º Distrito de Porto Alegre recebia tudo. E o Renner, para nós, simbolizava a vitória. Pensávamos: se eles conseguem, qualquer um de nós consegue também. É isso o que o Renner fez para a história. Pena tudo ter durado tão pouco – consterna-se Macchi.

Em 1959, a Renner fechou o clube e apostou em outras estratégias para expandir sua marca.

– O dia 10 de março de 1959 foi o momento mais triste do Renner, pois encerrava-se um sonho. Para nós, meninos do 4º Distrito, os jogadores eram referências de homens vencedores – diz Bechelli, fazendo coro a Macchi.

Força e Luz

Existe uma razão especial para o Força e Luz estar nesta reportagem. De todos os clubes pesquisados, é o único que fechou mesmo sem ter dívidas. Pelo contrário: tinha até dinheiro na poupança. Em 2006, ao receber uma proposta de R$ 9,5 milhões da Companhia Zaffari, os sócios do clube ligado à companhia de eletricidade decidiram aceitar a venda da área localizada no bairro Santa Cecília, em Porto Alegre.

Os campos do Estádio da Timbaúva ainda resistem, a obra para a construção de um shopping mal começou, mas o maior símbolo do Força e Luz não está mais lá. O pavilhão da antiga Baixada, estádio do Grêmio, que deu a estrutura como moeda de troca do zagueiro Airton Ferreira da Silva, foi levado ainda nos anos 1990, quase 20 anos após a última participação profissional do clube (1972). Há um museu no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, no Centro. Estão expostos camisetas, flâmulas e fotos, entre outros objetos.

Sérgio Becchelli, torcedor

do Renner

 

Pedaços

da memória

túnel

do tempo

Sem Breno Mello,

não haveria Obama