Uma história de ascensão e queda

A ntes de se tornar um fenômeno do início dos anos 2000, o 15 de Novembro levou para Campo Bom, no Vale do Sinos, a fama de ser o mais forte time do futebol amador do Estado. Por essa época, jogou lá o centroavante Geada, que depois marcou quase uma centena de gols pelo Grêmio, entre os anos 1940 e 1950. Dono de duas dezenas de títulos antes do período profissional, o clube cedeu à pressão da Federação Gaúcha de Futebol (FGF) para mudar de turma. Foram anos de convites de Rubens Hoffmeister e Emídio Perondi até que, em 1994, a equipe disputou – e foi vice – a terceira divisão. Depois de um período de sobe-e-desce, fincou posição na elite em 2000.

Em 2002, após se classificar com o segundo lugar geral na primeira fase (sem as duplas Gre-Nal e Ca-Ju), caiu no grupo do Grêmio de Tite no que se convencionou chamar de Super Gauchão. Contra o então campeão da Copa do Brasil, o time comandado por Flávio Campos aplicou 4 a 2. Na segunda rodada, venceu o Guarani-VA e já garantiu vaga na decisão, contra o Inter. Perdeu, mas pouco importava. O time do Interior começava a mostrar sua força.

No ano seguinte, repetiu tudo. Fez uma primeira fase – sem as duplas Gre-Nal e Ca-Ju – acima da média e encontrou o Inter na decisão. Mas novamente não teve forças, agora sob comando de Guilherme Macuglia, para ganhar do time de Muricy Ramalho, que tinha as jovens promessas Nilmar e Daniel Carvalho.

Em 2005, nova final entre Inter e 15 de Campo Bom, desta vez com mandos invertidos. Primeiro, o Inter fez 2 a 0 no Beira-Rio. Depois, o 15 devolveu os 2 a 0 no Estádio Sady Arnildo Schmidt. Na prorrogação, vitória colorada: 2 a 1.

– Mas Carlos Simon nos tomou dois minutos – recorda-se o atual presidente do 15, Uiraçu Blos.

De fato, o árbitro confirmou a ZH que encerrou a partida antes porque “o regulamento da competição previa tempo extra de 30 minutos corridos”. Ou seja, Simon cronometrou direto os dois tempos da prorrogação, incluindo na contagem a troca de lado no gramado. Algo inédito.

Mas e em 2004?

– Foi o momento mais triste que vivi em um estádio. Nós realmente acreditamos que poderíamos ter sido campeões do Brasil – comenta Uiraçu.

Naquele ano, Mano Menezes montou um time que surpreendeu o país. Na Copa do Brasil, após eliminar a Portuguesa Santista, pegou o Vasco de Beto, Valdir Bigode e o goleiro Fábio: 1 a 1 no RS e 3 a 0 para o time de Dauri, Marcelo Müller e Perdigão em São Januário. Tirou do caminho o Americano-RJ e o Palmas-TO até encontrar o Santo André nas semifinais. Venceu em São Paulo por 4 a 3. E, na volta, no Olímpico (o estádio de Campo Bom não comportava o mínimo exigido pela CBF), saiu ganhando e levou a dolorosa virada, 3 a 1. O time paulista acabou campeão ao bater o Flamengo no Maracanã.

O 15 ainda teve boas atuações em 2006 (eliminou o Grêmio da Copa do Brasil em pleno Olímpico), mas as temporadas de 2007 e 2008 foram desastrosas. Rebaixado, não disputou a Divisão de Acesso e optou por fechar seu departamento profissional. Tentou voltar em 2013, mas a má campanha na terceira divisão nem mereceu atualização no livro Clube 15 de Novembro – Rumo a seu centenário de futebol, escrito por Armin Blos, da mesma família do presidente.

Armin foi diretor financeiro no período áureo do profissional. Diz que o segredo era a organização:

– Estabelecemos uma regra clara para remuneração, um salário fixo mais uma premiação por desempenho. Tudo documentado (inclusive no livro). Todos sabiam exatamente o que fazer para receber. Demos outra dimensão para a cidade. Campo Bom virou referência. Era uma época feliz, um sonho que vivemos, muito em função de Tovar Schmidt (empresário calçadista, filho de Sady Schmidt), que acreditava no clube. O dia em que decidiram fechar o futebol foi meu momento mais triste como desportista.

Atualmente, o 15 de Campo Bom mantém uma linda sede social no centro da cidade, o estádio e uma área que, por enquanto, é ocupada por quadras de tênis. Mas há um projeto de ampliação de utilização desta área para construir um novo estádio. Só a partir dela é que será pensada a volta do profissionalismo. Hoje, o clube abriga 150 crianças e adolescentes em uma escolinha de futebol.

Armin e Uiraçu Blos, do 15 de Campo Bom

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